Meu nome é Darko mesmo! E não, não é de Donnie Darko
Foi a melhor coisa que achei na lista de nomes do mundo quando transacionei de gênero.
Sou tatuador, artista visual e criador de conteúdo.
Tenho sol em sagitario e uma necessidade muito grande de conhecer novos ares pelo menos uma vez no mes. Me expresso através da arte, sou extrovertido e faço amizade até com os velhinhos do ponto de ônibus.
Dizer quem eu sou é algo complexo pra mim, pois o que eu escrevi na verdade é: minha profissão, minha personalidade, meus gostos… meu ego
O que eu realmente sou talvez seja algo indescritível, aquela coisa imutável que sempre esteve ali antes mesmo de criar essa personalidade.
Gosto de dar roles na natureza e no hard techno, mas prefiro passar grande parte do meu tempo em casa vendo séries e filmes na companhia da Matilda, minha filha
Cria do Rio de Janeiro-SG, nasci como um ser singular que estava destinado a servir muito cunt na vida
Desde criança eu já tinha uma tendência artística muito forte pra dança e artes manuais, embora naquela época não esperava que isso fosse virar profissão.
Funkeira e favelada, aprendi o quadradinho antes mesmo da Anita lançar em rede nacional (o que estranhamente agregaria na minha carreira da tatuagem quase 20 anos depois)
Durante a adolescência eu fui experimentando de tudo, cursei técnico em construção naval, lutei taekwondo e fiz pole dance por uns 5 anos. Também acumulei mais de 100 tatuagens no corpo, o que olhando hoje foi uma espécie de currículo informal que eu estava montando sem saber.
Inclusive, eu já desenhava várias das minhas próprias tattoos. Aos 17 anos fiz um escorpião tribal enorme e pedi pra uma amiga tatuar nas minhas costas. Foi o primeiro tribal de muitos que viriam 4 anos depois.
Em 2017 entrei na licenciatura em Física na UFF. Sim, Física.
Eu realmente gostava das teorias e achava tudo aquilo fascinante, mas eu era uma desgraça nos cálculos. Até hoje o sistema acadêmico me dá calafrios e sonhar com provas de cálculo são meus piores pesadelos.
Mesmo assim, fui levando. Naquela época, muita gente já olhava meus desenhos e falava que eu deveria tatuar. Eu fugia da ideia porque só conhecia tatuador fudido… Não parecia uma carreira promissora.
Inicio de 2020 fiz um curso de tatuagem pensando em ganhar uma grana extra enquanto terminava a faculdade. Quando eu tinha acabado de gastar todo meu dinheiro comprando material de tattoo começou a pandemia, então esse inicio foi meio lento.
Faltava pouco pra eu me formar, minha monografia já estava começando a existir e eu poderia simplesmente continuar naquele caminho porque, aparentemente, era isso que uma pessoa responsável faria. Mas a pandemia me trancou em casa e me obrigou a passar tempo demais pensando na minha própria vida.
Um fato é que eu era muito melhor tatuando do que fazendo Física, entao percebi que eu não queria perder mais um ano e meio pra me formar e tentando transformar uma coisa que eu so achava interessante em uma profissão que certamente não era minha vocação.
Troquei de carreira.
Nos primeiros meses, minha única preocupação era aprender a aplicar uma tattoo direito. Pegava praticamente qualquer coisa que conhecidos me pedissem. Eram tattoos simples e meio comerciais mas foi uma boa forma de aprender.
Isso não durou muito tempo…
Eu já tinha passado boa parte da vida desenhando e sempre amei tribais dos anos 90, então ainda em 2020 decidi fazer mais desenhos como aquele meu primeiro escorpião. Pesquisando algumas refs pra desenhar, conheci um movimento que estava surgindo na gringa, onde os artistas faziam tribais mas cada um com seu estilo próprio.
Isso abriu muito minha mente porque ate entao, achava que pra ser tornar tatuador era preciso escolher um estilo ja existente e seguir as características dele.
Comecei a desenvolver meu próprio estilo tribal ainda em 2020, naquela época havia no máximo 10 pessoas no mundo inteiro fazendo isso. Percebo hoje que isso faz mim um dos pioneiros dos novos tribais.
Durante alguns anos fui estudando, desenhando, tatuando e tentando entender até onde eu conseguia levar aquela linguagem. Não havia absolutamente nada no google sobre esse assunto, então me dediquei a escrever blogs sobre cybertribal, fiz vídeo pro YouTube e tentei explicar esse movimento que ainda estava se formando. Só que, pouco tempo depois, percebi que o termo estava começando a ser usado de uma forma que não representava mais o que eu via no inicio.
Vários tatuadores começaram a fazer como se fosse só mais uma demanda comercial, mesmo não tendo um estilo/personalidade a ver com isso. Em 2022 começaram a botar no pinterest cybertribais cada vez mais genéricos e… pronto! Aconteceu a mesma merda dos anos 90, quando os neotribais do Leo Zulueta saíram numa revista e ele foi copiado pelo mundo.
Os desenhos foram simplificados e tão replicados se criou o genérico tribal que todos conhecem.
Tatuagem comercial é uma praga muito eficiente.
Então abandonei o termo e continuei fazendo o meu trabalho do meu jeito.
Enquanto isso, eu ainda precisava pagar as contas. Trabalhei no telemarketing, depois fui auxiliar de cozinha e passei alguns anos desenvolvendo meu trabalho na tatuagem em dias de folga até conseguir me sustentar só com tattoo.
Em julho de 2023 eu abandonei o CLT, parei de atender no meu home studio e fui pro Estúdio Noturna, onde sou residente até hoje.
No mesmo ano fiz minha primeira viagem pra tatuar em São Paulo e vi que eu queria ser um tatuador viajante.
Não necessariamente porque era lucrativo. Inclusive, muitas vezes não era.
Eu só gostava da ideia de conhecer novos lugares, artistas, fazer meu nome e depois ir embora deixando um punhado de gente marcada no caminho.
Comecei então a estudar anúncios, divulgação e todas essas coisas que um tatuador aparentemente precisa aprender quando decide que quer ser visto. Fui forçando cada vez mais as viagens e, aos poucos, construindo uma carreira que não dependia de gente chegando pela porta do estúdio.
Só que tinha uma coisa que continuava me incomodando: a tatuagem comercial ocupava quase todo o espaço de visibilidade, enquanto um monte de artista autoral incrível continuava escondido da internet, fazendo trabalhos muito mais interessantes.
No final de 2024 comecei o Subverso, um projeto no YouTube criado pra documentar justamente essa cena da tatuagem underground. Nele eu faço entrevistas com artistas que seguem na carreira criando artes fora do convencional, e mostrando o funcionamento dos estúdios contraculturais.
Esse canal foi minha primeira vez botando a cara na frente das câmeras. Eu era muito enrijecido por ter vergonha de ser trans e tentar parecer “passável”
Em 2025 comecei a viajar ainda mais e fui aperfeiçoando meu trabalho. Mudei a maneira de aplicar minhas pinturas, deixando tudo cada vez mais contrastado, mais seco e mais próximo daquilo que eu tinha na cabeça.
E aí veio 2026.
Eu finalmente perdi a vergonha de fazer vídeo sendo eu mesmo.
Parei de tentar parecer um tatuador certinho o tempo inteiro. Comecei a gravar videos zoando com as coisas que eu queria e perdi também perdi a vergonha do meu corpo trans.
O resultado foram meus primeiros vídeos virais.
*gifs de 3 reels
Meu conteúdo começou a furar bastante a bolha da tatuagem e, em poucos meses, passei de uma audiência que conhecia principalmente o meu trabalho pra uma quantidade muito maior de gente que também queria acompanhar pela minha personalidade singular.
Foi aí que entrei na minha fase atual: além de tatuador, virei criador de conteúdo.
Hoje em dia sigo o fluxo de todas essas coisas que construí e to pensando em qual vai ser a próxima merda que eu vou inventar.